Em tempos de eleição é comum ouvirmos as promessas dos candidatos. Grande preocupação é a economia que, num país como o nosso, acredita-se ser a base de todas as necessidades. Saúde, educação, segurança, habitação, tudo isso depende de dinheiro e dinheiro se consegue com uma economia forte.

Os candidatos se debatem – hoje em dia se digladiam – sobre teses mirabolantes criadas por seus assessores e publicitários e nós, espectadores eleitores, muitas vezes sequer entendemos do que se está falando. O que, afinal, aconteceu de verdade na Petrobrás? É verdade que o Brasil, tão carente, financiou porto em Cuba? E por falar em Cuba, por que trazer médicos de lá se temos tantos aqui? O que, afinal de contas, é improbidade administrativa? O que faz o TCE? E o TCU? E o Ministério Público? Por que brigam, os candidatos, quando o tema é a autonomia ou independência do Banco Central? Afinal, o que faz o Banco Central?

Mas há um tema, recorrente, polêmico, a pedra no sapato de qualquer candidato: a corrupção.

Todos nós, espectadores eleitores, temos uma boa noção do que é a corrupção: corrupção é uma coisa muito feia. Coisa de bandido. Corrupção é algo que assola o governo. Político é corrupto. O problema do Brasil é a corrupção e é por isso que temos que varrer os políticos. O candidato A é mais corrupto do que o candidato B. Nunca se viu um governo mais corrupto.

A corrupção é algo tão lamentavelmente inserido na cultura brasileira que aceitamos, com certo grau de naturalidade, certo grau de corrupção. O problema não é ser corrupto, e sim ser muito corrupto.

E assim, candidatos e espectadores eleitores, se posicionam, se manifestam, discutem, ofendem, agridem e se esquecem de um pequeníssimo detalhe: isso não os faz diferentes daqueles que criticam.

Segundo o Michaelis – dicionário da língua portuguesa – corrupção é ação ou efeito de corromper. Corromper, por seu turno: alterar, desnaturar, mudar para o mal.

Corrupção não é privilégio de político. Lembram-se da famosa Lei de Gerson? Aquela, segundo a qual, o importante é levar vantagem?

Infelizmente a Lei de Gerson não foi revogada. É a Lei brasileira não escrita, mas praticada todos os dias, em todos os cantos do país, por todas as pessoas de todas as classes sociais. E o que é pior: o fundamento da sua vigência está no argumento implícito, jamais dito ou admitido, de que todo mundo faz.

Para exemplificar: hoje eu levava a minha filha para a prova do vestibular. Como de se esperar, muito movimento de carros no entorno do local da prova. Uma via de três pistas na porção urbana da Rodovia Régis Bittencourt sentido Rio Grande do Sul lotada de carros por alguns quilômetros. Trânsito lento. Em certo trecho há uma via lateral para acesso local. Ficamos observando que, enquanto os incautos seguiam pela via principal, suportando o calor, a lentidão e a tensão pelo tempo que não dá trégua, os espertos saiam pela via lateral, vazia num domingo, para furar fila, retornando à pista principal lá na frente. Claro que com isso esses cidadãos atrapalhavam o conjunto do trânsito, mas tudo bem desde que tirassem alguma vantagem disso.

Essa é a pequena corrupção do dia a dia. Furar fila, andar só um pedacinho na contramão, passar um dinheirinho pro guarda para não ser multado, jogar lixo no chão, para fora do carro, deixar o cocô do cachorro no jardim ou calçada do vizinho, responsabilizar o outro pelas suas faltas, tudo isso são poucos exemplos do que todos nós somos capazes de fazer.

Dizia Immanuel Kant: Age de tal modo que a máxima da tua ação possa sempre valer como princípio universal de conduta.

Trocando em miúdos, a roupa suja lavada em rede nacional na época das eleições é mero reflexo de uma sociedade corrompida. Não existe corrupção pequena ou corrupção grande. Corrupção grave ou corrupção leve. Existe corrupção. E ela não deve ser admitida em hipótese alguma.

O Brasil só melhorará quando o brasileiro deixar de ser espectador para ser ator da transformação, agente político. E isso começa dentro de casa, com a vigilância dos próprios atos, com a educação dos filhos, com a noção de que, em sociedade não existe “eu”, mas apenas “nós”.

(Estela Gomes é Mestre em Direito Civil e Empresarial, Professora Universitária e Advogada)

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